Pular para o conteúdo principal

A Linguagem Pós-Moderna e os Jogadores de "Fogo Livre"


           
A História nos guia através do tempo e nos mostra as diversas fases da Literatura e da Poesia: O Quinhentismo e a carta de Pero Vaz de Caminha, o Barroco e os poemas satíricos de Gregório de Matos, O Romantismo e a literatura do Índio até chegarmos na fase que conhecemos como Pós-Moderna.

Quem cunhou a nomenclatura "Pós-Moderna" para os tempos contemporâneos, não foi nenhum escritor ou poeta, e sim o Sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925- 2017). Bauman não apenas cunhou o termo, como também construiu todo um pensamento crítico, sensato e debochado do mundo Pós-Moderno; Ele expõe a fluidez das relações afetivas num pensamento denominado Mundo Líquido.

“Escolhi chamar de modernidade líquida a crescente convicção de que a mudança é a única coisa permanente e a incerteza, a única certeza.” Bauman, modernidade Líquida, 1999.

Free Fire, em tradução do inglês "Fogo Livre", não é nenhum livro clássico sobre o fogo da liberdade, nem uma obra de arte oculta sobre incêndio, mas um jogo eletrônico mobile da categoria "Battle Royale" (Batalha Realista). Free Fire conquistou milhares de adolescentes em todo o mundo, chegando a fica no top 1 de aplicativos com mais download´s nas lojas virtuais de celulares e computadores. Tem como finalidade  "sobreviver" e "matar" os seus inimigos virtuais dentro de uma campo de batalha aberto e conseguir as inúmeras recompensas que o jogo oferece.

Você agora deve estar se perguntando, qual a relação do pós-modernismo de Bauman com os jogadores de Free Fire, e eu logo lhe respondo caro leitor, as semelhanças são imensas que cheguei a suspeitar que antes da sua morte em 2017, o sociólogo já tivesse participado dos "Squad" do jogo.



Com várias noites perdidas e manhãs cansativas, meu irmão, meus primos e sua rede de amigos na minha cidade, jogam Free Fire em um ritmo frenético, deixando de lado tudo que o mundo tem a oferecer de melhor como comida, amigos reais e relacionamentos amorosos. Isso despertou em mim uma vontade de estudar um pouco sobre a linguagem que os jogadores usam em suas partidas e nos chats virtuais com seus amigos, e claro não pude deixar passar tal semelhança com os pensamentos de Zygmund Bauman.

1º PONTO -  "Passa a Call", "Não tô de Capa" , "Bora Rushar" e "Papou minha Kill" são algumas expressões dentre as diversas que os jogadores usam pra se comunicar dentro do jogo, sim, isso é um tipo de comunicação, e sim, é uma linguagem recorrente nos dias de hoje. Nós não precisamos ser jogadores de Free Fire para usar esse tipo de  comunicação, com a rapidez que a informação trafega pelas redes sociais, é muito mais interessante escrever "VC" ao invés de você, "S" ao invés de sim ou "OBG" no lugar de obrigado. Bauman subjuga essa linguagem e dá sentido a ela, para o sociólogo, o mundo contemporâneo tem medo da solidão, ele explica que a fragilidade dos relacionamentos, sua fugacidade, velocidade e descartabilidade exigem que o fluxo de novas informações seja grande e altamente variado, o que não permite que se passe muito tempo preso a uma só conversa ou assunto, informação ou pessoas, isso só apenas causaria o risco de perder  a novidade do momento, do instante. Para esses jogadores quanto mais rápido e simples for  a fala, mais rápido o entendimento do ouvinte e mais conversas surgirão e mais momentos esses jogadores terão para viver no jogo.

2º PONTO - Durante a história do ser humano, o medo de morrer sempre foi um motivador para grandes conflitos, para impulsionar religiões e até mesmo para gerar mortes. Nada comparado aos jogadores de Free Fire, para eles morrer significa perder todo progressão e toda relação com os amigo que ele foi conquistando ao longo de 15 minutos, isso mesmo, a vida Pós-Moderna demora em torno de 15 minutos. Bauman em 2000 publicou seu livro Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos, nessa obra Bauman discuti que os seres humanos vivem curtas vidas durante toda vida, se você associou isso a uma  partida dentro de um mapa do jogo, você claramente está entendendo o pensamento de Bauman.

3º PONTO - Se você leitor acha que os diversos jogadores de Free Fire perdem tempo jogando tal jogo, recomendo que repense sobre o assunto. Os youtubers que comentam sobre o jogo tem um característica bastante curiosa, testar a humildade dos jogadores, sim existe um código de ética e moral que nem Kant (1724 - 1804) imaginou existir. Para entender isso melhor, precisamos comentar sobre o último tópico desse texto.

4º PONTO - E então, se eu fosse determinar qual a finalidade, qual o objetivo maior de jogar Free Fire, eu logo descartaria a diversão, a vontade de interação humana ou a de ser o melhor no jogo, mas, eu usaria um outro sociólogo para explicar minha ideia, eu usaria o alemão Karl Marx. O idealizador do comunismo e dos pensamentos de esquerda, Mark no seu livro O Capital, introduz no pensamento crítico um conceito que ele próprio chama de fetiche da Mercadoria; Basicamente o Fetiche seria uma transformação dos aspectos da mercadoria subjetivas em aspectos objetivos. Levando isso para o mundo do jogo Mobile, o grande motor potencializador do jogo são as aquisições de  roupas para seu personagem, modelos de armas e equipamentos diferenciados, e isso pode custar horas e horas de jogo, como também muito dinheiro. Todas essas "mercadorias" virtuais abrem novas relações  e elevam o status dos jogadores dentro da classe social que existem no jogo, variando de  inexperiente e sem luxo (NOOB) para Mestres ricos.

Retomando o 3º PONTO, para muitos jogadores existem um código de ética: seja sempre humilde que você sempre melhorará dentro do jogo. Sim, isso soa como dica de Coach Quântico, mas são apenas os vários youtubers que gravam vídeos com o título "Testando a Humildade dos iniciantes". Isso daria uma postagem ótima, mas acho que vamos parar por aqui. Tanto Bauman, quanto Kant e Marx se fosse contemporâneos hoje, olharia para o Free Fire como uma obra que melhor representaria nossa sociedade líquida e nos relações fluidas nas redes sociais. 


Não vamos nem tentar saber o que Nietzsche falaria sobre Free Fire, isso desafiaria toda a compreensão humana.




Indicação de Livros 

Modernidade Líquida  - Zygmund Bauman, 1999.

Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos - Zygmund Bauman, 2000.

O Capital - Karl Marx, 1867.
















Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha - Uma análise crítica do ensino de Física

O artigo Uma análise crítica do ensino de Física , escrito pelo Prof. Marco Antonio Moreira é uma produção em forma de crítica ao sistema atual do ensino de Física. Com o objetivo de fazer uma abordagem crítica à  Pesquisa e Estruturação do Ensino de Física, o artigo aborda em forma de tópicos os pontos importantes a serem discutido sobre essas  temática. No primeiro tópico Introdução e no segundo tópico Mas por que tudo isso? Por que esse ensino? o prof. Moreira destaca algumas marcas import antes e conquistas que houveram na área do E nsino de Física. Contudo,  em paralelo o autor explicita que mesmo com os avanços, o Ensino de Física encontra-se em crise. Nos tópicos conseguintes, referente a Pesquisa Básica , Pesquisa Avançada e Pesquisa Translacional. Para o autor  existe um certo tom de contraste em relação à pesquisa e publicação, já que quase anualmente saem  inúmeras  pesquisas em Ensino de Física no Brasil, mas o autor é coerente  em dizer...

ANÁLISE DO LIVRO DIDÁTICO: FÍSICA DE SAMPAIO & CALÇADA

     Eduardo Freitas Cardozo Lic. Em Física      Como parte do plano nacional do livro didático (PNLD). a coleção volume único de FÍSICA, é uma obra dos autores José Luiz Sampaio e Caio Calçada, conhecidos por serem professores e autores de livros de Física, conhecidos sobretudo por sua qualidade e rigor acadêmico, além de uma prioridade didática, refletido principalmente nessa obra volume único. Neste volume único os autores trazem uma teoria completa exigida para o ensino médio é exposta de forma concisa, simples, mas objetiva do ponto de vista didático, entretanto mantendo-se o rigor conceitual. O livro traz ainda uma enorme variedade de exercícios e de testes de vestibulares e do Enem, além de leituras sobre aplicações da Física no cotidiano, dentro de um itinerário normativo baseados nos antigos PCN’s, pois o livro é do triênio 2009-201 do selo PNE.   O livro dispõe de todos os assuntos referentes ao conteúdo programático de Física Clássica...

A Ressureição do Major Quaresma #1: O vilipêndio

N o Epitáfio estava escrito: Aqui jaz o major Policarpo Quaresma, aquele que amava o Brasil mais do que a si próprio, aquele que morreu em desgosto, mas, como último ato, sua mente deu-lhe o despojo de sonhar, morreu suspirando a certeza de um Brasil glorioso em um futuro, nem que fosse distante. Ricardo Coração dos Outros       Fazia-se um silêncio Enorme no Cemitério dos Ingleses, um vento profundamente frio corria entre as lápides provocando um som meio tenebroso, parecia cantar de forma solene. O velho Carlota, vigilante do cemitério, estava de fronte ao portão de entrada sentado em uma cadeira cochilando seu bom sono das 4:00 da madruga - pois sabemos que vigiar aqueles que não voltam mais não exige tanta atenção assim - quando uma luz forte, um som agudo e estridente e um certo tremor o acordou de seu sono "leve" de vigilante. O som vinha do fim de uma via de acesso, a luz parecia descer e pairar sobre uma das lápides; foi então que Carlota percebeu que tr...