
No Epitáfio estava escrito:
Aqui jaz o major Policarpo Quaresma, aquele que amava o Brasil mais do que a si próprio, aquele que morreu em desgosto, mas, como último ato, sua mente deu-lhe o despojo de sonhar, morreu suspirando a certeza de um Brasil glorioso em um futuro, nem que fosse distante.
Ricardo Coração dos Outros
Fazia-se um silêncio Enorme no Cemitério dos Ingleses, um vento profundamente frio corria entre as lápides provocando um som meio tenebroso, parecia cantar de forma solene. O velho Carlota, vigilante do cemitério, estava de fronte ao portão de entrada sentado em uma cadeira cochilando seu bom sono das 4:00 da madruga - pois sabemos que vigiar aqueles que não voltam mais não exige tanta atenção assim - quando uma luz forte, um som agudo e estridente e um certo tremor o acordou de seu sono "leve" de vigilante. O som vinha do fim de uma via de acesso, a luz parecia descer e pairar sobre uma das lápides; foi então que Carlota percebeu que três criaturas estranhas erguiam suas mãos sobre a lápide e deixavam cair sobre ela pequenas coisinhas. Assustado ele fez o sinal da cruz e saiu correndo coçando os olhos sem acreditar em tudo aquilo, entrou em seu carrinho classe média e fugiu do lugar.
No dia seguinte Carlota voltou ao cemitério, havia sido convencido por sua esposa que aquilo era apenas um preságio pós sono, e que ele havia sonhado acordado, ou ainda que era um pegadinha de TV do Sílvio Santos ou do João Kleber, pois seu amigo Deodato já havia passado por isso no mesmo cemitério. Ao voltar ao trabalho, o velho Carlota não percebeu diferença alguma, e fez o que ele fazia de costume, comer seu pão com leite moça e tomar sua xícara de "pingado" na guarita dos vigilantes. Devido ao surto de coronavírus, que assolava o país e principalmente o Rio de Janeiro, a empresa terceirizada que administrava o cemitério, a Coração dos Outros, reduziu o número de funcionários na vigilância do local como forma de evitar a propagação do vírus - mesmo que deixa-se um metro quadrado ou outro de defuntos desprotegidos da leviandades dos tempos - fazendo com que naquela noite Carlota estivesse sozinho no cemitério.

Ao fazer sua ronda da manhã, eram umas onze e meia, Carlota se preparava para ir embora, pois seu amigo Deodato trocaria com ele a vigilância do cemitério. Andando entre as lápides ouvia o som dos canários no cume do velho pé de Carvalho que sombreava a capela do túmulo da senhora Maricota Albernaz e seu digníssimo esposo, o general Albernaz; ao virar por detrás do velho carvalho, Carlota se deparou novamente com a velha via de acesso que na noite passada havia visto as visagens, as esferas e o túmulo. Como a curiosidade, muitas vezes supera o medo mortal, o velho via-se como guiado pelo vento através da via; não havia, portanto, obrigação dele ir até o túmulo, pois, de onde estava via-se muito bem todo o perímetro, entretanto, Carlota prosseguiu errante, cada vez mais perto e aterrorizado, como que em si a mortandade assola-se aquele quase meio dia!
Faltando um metro para chegar ao túmulo, percebeu que ele havia sido violado, estava aberto e com o granito quebrado. Então, de súbito, e como que caindo na real sobre seus deveres de vigilante, empunhou seu celular em uma das mãos e fotografou todo o mausoléu murmurando "Vilipêndio, Vilipêndio, Vilipêndio". Vale ressaltar que o Vilipêndio a cadáver é o maior terror dos vigilantes de cemitério, uma profissão muito descriminada e chacotada, mas que Carlota encarava com extrema profissionalidade e cuidado por 30 anos. Carlota estava muito apreensivo de ser demitido, pois temia que as visões que havia visto fossem uma estratégia dos ladrões de cadáver para o fazer ir embora do cemitério, os permitir levar o corpo, entretanto, o velho vigilante não acobertou nada e seguiu o manual de emergência do vigilante de cemitério e ligou para a polícia de imediato.
Quando os policiais chegaram ao local, Carlota os conduziu até o velho túmulo, eles arrastaram os pedaços quebrados da tampa do mausoléu e constataram que o defunto de fato havia sido levado. O capitão Chagas Bola, que comandava a patrulha, procurou o local onde estava a lápide, e então a achou quebrada em tês pedaços ao lado do túmulo, entre as graminhas. O policial as juntou, passou de leve sua farda na mesma para tirar a poeira e a leu, meio que já apagado, o nome do finado. Na lápide, junto com um comprido epitáfio, estava assim assinalado: Aqui Jaz o Major Policarpo Quaresma.

- Foi rápido jovem Damásio! - Disse - Espero que não tenha vindo atravessando o cemitério a galopes.
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